Quem desce o Viaduto do Chá em direção ao Vale do Anhangabaú esbarra numa fachada que destoa do resto do centro de São Paulo. Enquanto os prédios ao redor sobem em vidro e concreto, o Edifício Matarazzo mantém colunas, pedra e uma sobriedade que lembra mais Roma do que a São Paulo atual. Faz sentido: foi exatamente essa referência que o projeto buscou, décadas atrás.
Hoje é ali que funciona o gabinete do prefeito e boa parte da administração municipal. Mas o prédio nasceu para outro dono e outro propósito, e mudou de mãos três vezes antes de chegar ao poder público.
Um endereço que já foi cartão-postal industrial
O terreno fica no Vale do Anhangabaú, encostado no Viaduto do Chá, num dos pontos mais movimentados do centro histórico paulistano. A construção foi encomendada por Francisco Matarazzo Júnior para servir de sede às Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo, o conglomerado que, na primeira metade do século 20, chegou a ser um dos maiores empregadores privados do país. Ter um edifício-sede imponente no centro da capital, à vista de quem cruzava o vale, era também uma forma de declarar poder.
As obras começaram em 1937 e terminaram em 1939. O projeto original saiu do escritório Ramos de Azevedo, Severo & Villares, mesmo escritório por trás de boa parte da arquitetura pública paulistana da época, mas passou por revisões do italiano Marcello Piacentini, contratado a pedido do próprio Matarazzo Júnior.
Um prédio de inspiração italiana no meio do centro
Piacentini era um nome de peso na Itália: assinava projetos ligados ao regime fascista de Mussolini, com um estilo neoclássico simplificado — linhas sóbrias, monumentalidade, referências visuais ao Império Romano. Foi esse repertório que ele trouxe para o Matarazzo, e o resultado ainda salta aos olhos: colunas, simetria rígida, uma fachada que parece pensada para impor respeito mais do que para agradar.
O edifício tem 14 andares, mas só em contagem simbólica: por superstição da época, não existe 13º andar registrado. A altura chega a 46 metros, o suficiente para dominar a paisagem do vale antes da chegada dos arranha-céus vizinhos.
No hall de entrada está um mapa do Brasil de 1939, do tamanho de uma parede, que sobrevive desde a inauguração e ainda recebe quem entra pela portaria principal.
Da fábrica ao banco: os donos que vieram depois
As indústrias Matarazzo ocuparam o prédio até 1972, quando ele foi vendido à Audi Química Industrial Paulista S.A., ligada ao Grupo Audi. A passagem foi curta: em 1974, o imóvel mudou de mãos outra vez, comprado pelo Banco Banespa.
Foi nessa fase que o edifício ganhou o apelido pelo qual muita gente da cidade ainda o reconhece: Banespinha. No térreo funcionava uma agência do banco; nos andares de cima, departamentos como Comércio Exterior, a biblioteca do Banespa e o setor de compensação. A ocupação bancária durou quase três décadas, até 2003.
Em 1992, antes mesmo de o Banespa deixar o prédio, o Conpresp tombou o imóvel, reconhecimento do valor histórico, social e urbanístico que ele representa para o Vale do Anhangabaú.
Como o prédio virou sede da Prefeitura
A virada para o poder público aconteceu por causa de uma dívida, não de uma compra planejada. A extinta CMTC, a Companhia Municipal de Transportes Coletivos, devia cerca de R$ 885 milhões ao Banespa. Como parte da renegociação dessa dívida, o banco cedeu o Edifício Matarazzo à Prefeitura. A transferência foi formalizada em 25 de janeiro de 2004, data que marca o início da atual função do prédio como sede administrativa do município.
Desde então, é ali que despacha o prefeito de São Paulo, junto com secretarias e órgãos da administração direta.
O jardim no telhado e outras curiosidades
O último andar guarda a parte menos esperada do edifício: um telhado verde com mais de 400 espécies vegetais vindas de várias partes do mundo, distribuídas ao redor de três mirantes. Dali dá para ver o Edifício Copan, o Altino Arantes (o antigo prédio do Banespa) e o Theatro Municipal, três dos símbolos mais reconhecíveis do centro paulistano.
O telhado também abriga um heliponto, ainda em uso pela administração municipal.
Aos sábados, a visita inclui uma parada no quinto andar, no Gabinete do Prefeito, onde ficam expostas obras de arte, entre elas uma tela de Tomie Ohtake e um quadro de Clodomiro Amazonas.
Visitas guiadas: como participar
Desde setembro de 2015 a Prefeitura abre o prédio para visitação pública gratuita, de segunda a sábado, em três horários: 10h30, 14h30 e 16h30. Os grupos são pequenos, de até dez pessoas, acompanhados por um guia da SPTuris.
Para entrar é preciso se inscrever no balcão do próprio edifício, no Viaduto do Chá, com uma hora a 15 minutos de antecedência, apresentando documento oficial com foto. O passeio dura cerca de uma hora: começa do lado de fora, com explicações sobre a fachada e a história do prédio, segue pelo hall com o mapa de 1939, passa por um vídeo sobre a família Matarazzo no segundo andar e termina no jardim suspenso.
Vários nomes, um só prédio
Ao longo de quase noventa anos, o edifício acumulou apelidos que ainda circulam entre paulistanos: Edifício Conde Matarazzo, Palácio do Anhangabaú, Banespinha. Cada nome marca uma fase diferente, a industrial, a bancária, a atual sede pública, mas todos apontam para o mesmo endereço no Viaduto do Chá, hoje um dos poucos prédios do centro de São Paulo onde é possível, de graça, entrar e subir até o telhado.
Comentarios (0)