Em 5 de junho de 1887, um grupo de imigrantes desceu na Hospedaria de Imigrantes do Brás, complexo de tijolos aparentes erguido junto às linhas férreas que ligavam o porto de Santos ao interior paulista. Nos 91 anos seguintes, o prédio recebeu algo entre 2,5 e 3,5 milhões de pessoas — a variação nas estimativas depende de quais registros cada pesquisador consegue reconstituir, já que boa parte dos livros de matrícula se perdeu ou nunca foi digitalizada. Entre os que chegaram até meados dos anos 1920, os italianos formavam o maior grupo estrangeiro. E foi a partir daquele portão que dois bairros vizinhos da zona leste, Brás e Mooca, se transformaram nos endereços mais associados à presença italiana na maior cidade do Brasil.
Por que vieram
A unificação da Itália, concluída em 1870, não trouxe prosperidade ao campo. Vêneto, Calábria, Campânia e Sicília viviam de agricultura de subsistência atropelada por impostos altos, fragmentação de terras e concorrência de produtos importados mais baratos. Some-se a isso o crescimento populacional sem correspondente expansão econômica, e o resultado foi um êxodo maciço rumo às Américas.
Do lado brasileiro, a aproximação do fim da escravidão criava um problema concreto para os fazendeiros de café do oeste paulista: quem trabalharia nas lavouras. A resposta oficial combinou dois interesses que nem sempre eram ditos em voz alta — suprir a mão de obra e, ao mesmo tempo, "branquear" a população, ideia que circulava com força entre autoridades da época. Fazendeiros criaram em 1886 a Sociedade Promotora de Imigração, e entre 1885 e 1902 o governo paulista foi construindo, aos poucos, uma política de imigração subsidiada voltada especialmente aos italianos. De 1902 a 1920 essa política se consolidou. O resultado: até 1920, São Paulo havia recebido cerca de 70% de todos os imigrantes italianos que entraram no Brasil, um total de 1.078.437 pessoas, segundo o historiador Angelo Trento. Somando todas as origens, o estado recebeu perto de 2,3 milhões de imigrantes entre 1886 e 1934 — quase um terço deles só na década de 1890.
O portão de entrada
Antes do Brás, havia uma hospedaria menor no Bom Retiro, ativa entre 1882 e 1887. O aumento do fluxo pós-abolição exigiu algo maior, e a construção do novo prédio começou em 1886. A inauguração formal costuma ser datada de 1888 — o mesmo ano da Lei Áurea, uma coincidência que os pesquisadores do Museu da Imigração gostam de sublinhar, porque expõe o quanto aquela arquitetura monumental nasceu ligada ao fim da escravidão e à substituição de um regime de trabalho por outro.
Dentro do complexo funcionavam dormitórios, hospital, farmácia, lavanderia, agência postal, posto policial e a Agência Oficial de Colocação e Trabalho, que fazia a ponte entre o imigrante recém-chegado e as vagas nas fazendas do interior. Intérpretes ajudavam quem não falava português. A estadia inicial era gratuita, mas o objetivo do prédio nunca foi reter ninguém — era encaminhar. Ainda assim, uma parte significativa desses recém-chegados nem chegou a pegar o trem para o interior: ficou ali mesmo, nos bairros ao redor da Hospedaria.
O Brás: comércio de porta em porta
Os italianos que desembarcavam vindos do sul da Itália tendiam a preferir ocupações urbanas, diferente dos vênetos e lombardos do norte, mais inclinados à lavoura. Essa diferença regional ajuda a explicar por que o Brás, colado à Hospedaria, virou um bairro de pequenos comércios abertos por famílias italianas — mercearias, açougues, oficinas, armazéns que vendiam para o mercado interno os produtos que os próprios imigrantes cultivavam em áreas como Campinas e Sorocaba. Em 1920, agricultores de origem italiana respondiam por cerca de 20% de todo o milho produzido no estado e 15% do feijão.
Com o tempo, o Brás deixou de ser majoritariamente residencial e virou polo comercial, hoje conhecido nacionalmente pelo varejo de moda e pela Feirinha da Madrugada. A presença italiana, que já foi o traço mais evidente do bairro, hoje exige um olhar mais atento: sobrenomes em fachadas antigas, cantinas que resistiram como a Gigio, na Rua do Gasômetro desde 1971, e a Pizzaria Castelões. Duas festas de rua ainda marcam o calendário católico local, a de São Vito e a de Nossa Senhora de Casaluce. Muitas famílias italianas, à medida que prosperavam, foram deixando o Brás para morar em bairros mais afastados do centro fabril — um movimento distinto do que aconteceu na Mooca, onde a presença italiana resistiu mais tempo.
A Mooca de chaminés
Enquanto o Brás virava vitrine comercial, a Mooca seguia outro caminho: o da fábrica. A Companhia Antarctica Paulista, fundada ali em 1891 para produzir cerveja, foi uma das primeiras. Mas o símbolo maior do bairro é o Cotonifício Rodolfo Crespi, erguido a partir de 1897 pela sociedade entre Rodolfo Crespi e Pietro Regoli. Quando Regoli saiu do negócio, em 1904, a fábrica passou a levar apenas o nome de Crespi. O prédio, projetado pelo arquiteto italiano Giovanni Battista Bianchi e concluído por volta de 1902, ocupava cerca de 50 mil metros quadrados construídos no quadrilátero formado pelas ruas dos Trilhos, Taquari, Javari e Visconde de Laguna — a primeira fiação de algodão em grande escala do Brasil, e por décadas o maior empregador do bairro.
A poucos quarteirões dali, o industrial Jorge Street construiu para os operários da sua Companhia Nacional de Tecidos de Juta uma solução diferente: a Vila Maria Zélia, inaugurada em 1917 com igreja própria, escola, creche, armazéns e casas – um projeto de vila operária que reunia a elite paulistana embasbacada com a modernidade da proposta. Street foi o único industrial da cidade a apoiar publicamente as reivindicações dos trabalhadores durante a greve daquele mesmo ano, e um dos primeiros empresários do país a propor licença-maternidade de dois meses.
1917: a greve nasce entre os teares
No dia 8 ou 9 de junho de 1917 — as fontes variam num ou dois dias —, cerca de 400 operários do Cotonifício Crespi, a maioria mulheres, pararam de trabalhar. Pediam aumento de salário e o fim da extensão do turno noturno. A direção da fábrica recusou e ameaçou demitir. Em vez de recuar, os grevistas se organizaram em torno da Liga Operária da Mooca, e o movimento cresceu: no dia 29 de junho, os 1.500 operários da Crespi já estavam todos parados.
Dali, a paralisação se espalhou para outras fábricas da região, como a Antarctica e a Fábrica Mariângela, do grupo Matarazzo. Famílias inteiras saíam pelas ruas da Mooca e do Brás pedindo solidariedade a outros trabalhadores, muitos deles vindos das mesmas cidades de origem na Itália ou na Espanha. Entre as pautas estava também o fim de um desconto obrigatório sobre os salários, cobrado pela colônia italiana mais abastada para financiar o esforço de guerra da Itália na Primeira Guerra — uma cobrança que pesava justamente sobre quem ganhava menos. O ativista José Luiz Del Roio relembraria décadas depois que os próprios operários italianos chamavam a si mesmos de "squiave bianche", os escravos brancos.
Entre 12 e 15 de julho, o número de grevistas passou de 25 mil para 45 mil em toda a cidade, com barricadas erguidas principalmente no Brás e na Mooca. A morte do operário José Martinez, num confronto com a polícia, levou multidões às ruas em seu enterro. As negociações, mediadas por diretores dos principais jornais paulistas, terminaram em 16 de julho: 20% de aumento salarial, direito de reunião reconhecido, nenhuma demissão de grevista e readmissão dos que já haviam sido demitidos. Ficaram também a proibição do trabalho noturno para mulheres e do trabalho de menores de 14 anos. Foi a primeira greve geral do Brasil, e ela nasceu, literalmente, dentro de uma fábrica de tecidos da Mooca.
1924: bombas sobre bairros operários
Sete anos depois, os mesmos bairros voltaram a ser palco de confronto, dessa vez armado. Durante a Revolta Paulista de 1924, tenentes rebeldes ocuparam São Paulo tentando depor o presidente Arthur Bernardes. Mooca, Brás e Belém, redutos operários e pontos de resistência dos rebeldes, foram bombardeados por forças legalistas. O prédio do Cotonifício Crespi, usado como trincheira, sofreu bombardeios pesados e teve de interromper a produção.
A fábrica reabriu depois, mas fechou definitivamente em 1963. O prédio virou supermercado do grupo Pão de Açúcar em 2005 — projeto que previa demolição quase total, até ser barrado por um movimento liderado pela jornalista e preservacionista Elizabeth Florido, que conseguiu manter a fachada histórica. Desde 2021 o espaço abriga uma unidade do Assaí Atacadista.
Um jeito de falar, um jeito de comer
Quem cresceu na Mooca reconhece de longe o sotaque arrastado e cantado que o bairro ficou conhecendo como seu, tanto que em 2009 o Conpresp chegou a estudar tombá-lo como patrimônio imaterial. Por muito tempo, esse jeito de falar foi associado a um suposto "dialeto ítalo-paulistano". Um estudo recente da Universidade de São Paulo, assinado por Giliola Maggio e Rafael Cesar Scabin na Revista de Italianística, revisitou a ideia e chegou a uma conclusão mais modesta: não existiu, de fato, um dialeto compartilhado e estável como o talian formado no sul do país, de base vêneta. O que existiu foi antes uma construção literária, popularizada pelo personagem satírico Juó Bananére, que os contemporâneos chamavam de "fala do Brás" ou "português macarrônico". A integração dos imigrantes foi rápida demais, e a diversidade de dialetos regionais italianos grande demais, para que se formasse uma língua mista coletiva. Isso não apaga o que ficou de fato: gerações de crianças que aprenderam o dialeto dos pais antes do português, como contou a imigrante Carmela Romano ao lembrar de um chamado da escola do filho, décadas atrás, para tratar da dificuldade dele com o idioma.
Na cozinha, a herança é mais fácil de apontar. A Confeitaria Di Cunto funciona no mesmo endereço da Mooca desde 1935, aberta por Donato Di Cunto, que havia chegado ao Brasil em 1905. Do lado de fora do estádio do Juventus, na Rua Javari, um vendedor conhecido como Seu Antônio segue fazendo cannoli com receita de mais de 50 anos. No Brás, a Cantina Gigio resiste desde 1971. O hábito do almoço de domingo com macarronada e molho de tomate, tão associado à vida familiar paulistana, veio direto dessas cozinhas — assim como o próprio "tchau", adaptação do "ciao" italiano incorporada ao português falado no Brasil inteiro.
O futebol também nasceu ali dentro. Em 1924, a fusão de dois times de várzea formados por operários, o Extra São Paulo e o Cavalheiro Crespi, deu origem ao Cotonifício Rodolfo Crespi Futebol Clube. Em 1930, o clube passou a se chamar Clube Atlético Juventus, homenagem sugerida pelo próprio Rodolfo Crespi depois de assistir a uma partida da Juventus de Turim numa viagem à Itália. O estádio na Rua Javari segue de pé.
O que ficou
A Hospedaria do Brás, fechada em 1978, passou por um processo de ressignificação: tombamento pelo Condephaat em 1982, criação do Centro Histórico do Imigrante em 1986, tombamento municipal pelo Conpresp em 1991, e finalmente a criação do Museu da Imigração em 1993 — instituição que hoje ocupa o mesmo endereço na Rua Visconde de Parnaíba, na divisa entre Brás e Mooca. Fechado para restauro entre 2010 e 2014, reabriu em maio daquele ano com uma exposição de longa duração que já não fala apenas de italianos: presta contas de mais de 70 nacionalidades que passaram por aquelas dependências, incluindo uma parede de madeira com mais de 14 mil sobrenomes gravados.
Brás e Mooca seguiram, depois disso, dois destinos diferentes. O primeiro virou sinônimo de comércio popular, e a marca italiana precisa ser procurada com atenção entre vitrines de roupa. O segundo manteve mais do seu tecido residencial e gastronômico, ainda que os antigos galpões fabris venham cedendo espaço, ano após ano, a torres de apartamento. Quem caminha hoje pela Rua dos Trilhos ainda encontra, entre um condomínio novo e outro, um pedaço de fachada de tijolo aparente que sobrou do Cotonifício Crespi — hoje vendendo arroz e feijão num corredor de supermercado, no mesmo terreno onde, em 1917, mulheres pararam a maior fábrica têxtil da América do Sul.
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