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Pinacoteca de São Paulo: 120 anos de história e um acervo de 12 mil obras

Pinacoteca de São Paulo: 120 anos de história e um acervo de 12 mil obras
Wilfredor, CC BY-SA 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0>, via Wikimedia Commons
O museu de arte mais antigo da cidade de São Paulo está localizado em um edifício histórico projetado pelo escritório de Ramos de Azevedo, que originalmente abrigava o Liceu de Artes e Ofícios.

Quem sai da Estação da Luz pela porta certa dá de cara com um prédio de tijolo aparente que parece nunca ter ficado pronto. E não ficou mesmo. O revestimento externo e a torre previstos no projeto original jamais saíram do papel, e é justamente esse tijolo nu que virou a assinatura visual do museu de arte mais antigo de São Paulo.

A Pinacoteca de São Paulo foi criada em 1905 pelo governo estadual. Hoje ocupa três edifícios no perímetro da Luz e do Bom Retiro, guarda cerca de 12 mil obras e recebe algo em torno de 800 mil visitantes por ano. 

Como um empréstimo de 20 quadros virou museu

O acervo inicial veio de um arranjo modesto: 20 obras transferidas do Museu Paulista, que hoje pertence à USP, mais seis pinturas compradas de artistas que atuavam na cidade, entre eles Almeida Júnior, Pedro Alexandrino, Antônio Parreiras e Oscar Pereira da Silva. Vinte e seis quadros. Era isso.

A Pinacoteca foi o primeiro museu paulistano dedicado só às artes, num momento em que São Paulo ainda era uma cidade de café e trilhos tentando se convencer de que também era capital cultural. O acervo cresceu devagar por décadas, muito à base de doações de colecionadores e de aquisições irregulares, conforme o humor orçamentário de cada governo.

O prédio que ficou inacabado por cem anos

O edifício da Praça da Luz foi projetado pelo escritório de Francisco de Paula Ramos de Azevedo e construído entre 1897 e 1900 para abrigar o Liceu de Artes e Ofícios, que oferecia cursos gratuitos de artes aplicadas. O Liceu havia prometido ao governo estadual entregar a obra concluída até 1905 para garantir o financiamento. Não entregou, e disse que sim.

O resultado é que o prédio atravessou o século XX sem o acabamento externo e sem a torre monumental sobre o octógono central. Pior: virou um cortiço institucional. Setores da Polícia Militar, o Conservatório de Música, a Escola de Arte Dramática e a Faculdade de Belas Artes dividiram o espaço com o museu ao longo das décadas. No fim dos anos 1980, a Pinacoteca ocupava menos da metade do edifício, cercada de puxadinhos e com manutenção precária.

Eu já ouvi gente do meio dizer que a Pina daquela época era um museu que ninguém sabia que existia, encravado numa região que a cidade tinha decidido esquecer. Não é exagero retórico. Era literalmente isso.

A reforma de Paulo Mendes da Rocha

A virada começou em 1993, sob a direção do artista Emanoel Araújo. Paulo Mendes da Rocha, ao lado de Eduardo Colonelli e Weliton Ricoy Torres, assinou o projeto de reforma e restauro, concluído em fevereiro de 1998.

A decisão mais ousada foi não fingir. Em vez de "completar" o prédio neoclássico, os arquitetos preservaram a marca da construção inacabada e trabalharam com ela. Cobriram os pátios internos com claraboias, inverteram o eixo de circulação e instalaram passarelas metálicas que atravessam o vão central, de modo que o visitante circula sobrevoando o pátio em vez de contornar corredores. A área construída ficou em cerca de 10.800 m².

É uma das intervenções mais estudadas da arquitetura brasileira contemporânea, e continua sendo a razão pela qual muita gente entra na Pinacoteca sem estar especialmente interessada em pintura do século XIX. O prédio segura a visita sozinho.

Pina Estação e o Memorial da Resistência

O segundo edifício tem uma história bem mais pesada. Também projetado pelo escritório de Ramos de Azevedo, foi inaugurado em 1914 como armazém de café da Estrada de Ferro Sorocabana. Entre 1940 e 1983, abrigou a sede do Deops-SP, o Departamento Estadual de Ordem Política e Social, polícia política que operou com particular violência durante a ditadura civil-militar.

O prédio foi tombado pelo Condephaat em 1999. Em 2002 abriu como Memorial da Liberdade, mostrando ao público as antigas celas. Em 2004, a Associação Pinacoteca Arte e Cultura assumiu a gestão e instalou ali a Estação Pinacoteca, com exposições temporárias, biblioteca e centro de documentação.

O nome mudou por pressão de quem passou por lá. A partir de 2006, o Fórum Permanente de ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo argumentou que chamar de "liberdade" um lugar onde pessoas foram torturadas era, no mínimo, uma piada de mau gosto. Em 24 de janeiro de 2009, o espaço foi relançado como Memorial da Resistência de São Paulo.

Quatro celas preservadas ficam no térreo, com uma maquete que reconstitui o espaço carcerário como era entre 1969 e 1971. A entrada no Memorial é gratuita, com retirada de ingresso no local. Não dá para sair dali do mesmo jeito que se entrou, e é meio esse o ponto.

Pina Contemporânea, a caçula de 2023

O terceiro edifício abriu em março de 2023, na Avenida Tiradentes, 273. O processo começou por volta de 2008, quando a Escola Estadual Prudente de Moraes iniciou sua transferência para outro endereço no Bom Retiro. O terreno foi cedido à Secretaria da Cultura do Estado em 2018.

O projeto é do escritório Arquitetos Associados, com Alexandre Brasil, André Luiz Prado, Bruno Santa Cecília, Carlos Alberto Maciel, Paula Zasnicoff Cardoso e Silvio Oksman. Dois prédios preexistentes foram mantidos: um mais antigo, atribuído ao escritório de Ramos de Azevedo, e a fachada modernista com cobogós e pilotis que Hélio Duarte desenhou nos anos 1950 para o grupo escolar, hoje ocupada por reserva técnica, biblioteca e centro de documentação.

O pátio de 1.339 m² ganhou pergolado translúcido e uma passarela que o circunda em quase 360 graus, com o elevador alinhado ao do prédio da Luz. Paula Zasnicoff descreveu a intenção como dar continuidade ao eixo que Mendes da Rocha começou. Com o anexo, o conjunto do museu passou a somar 22 mil m².

O que ver no acervo

A coleção cobre a produção brasileira do século XIX até agora, e o percurso da Pina Luz funciona quase como um curso acelerado de história da arte nacional.

"Caipira picando fumo", de Almeida Júnior, é provavelmente a obra mais reproduzida do acervo. Óleo sobre tela de 1893, 202 por 141 centímetros, retrata um trabalhador rural sentado na soleira de uma casa de taipa, concentrado em preparar o fumo. O modelo foi Bento Roque Pires. O quadro é peça-chave do regionalismo paulista, e de perto impressiona mais pelas mãos e pela sujeira do chão do que pela cena em si.

Também estão lá Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Candido Portinari, Lasar Segall, Alfredo Volpi, Victor Brecheret e Lygia Clark. O Jardim das Esculturas, do lado do Parque da Luz, ganhou em 2023 a obra "Mami Wata", de Nádia Taquary, incorporada ao percurso permanente.

A gestão de Jochen Volz, diretor-geral desde 2017, empurrou a curadoria para longe de um cânone estritamente paulista e branco, com aquisições e exposições que ampliaram a presença de artistas negros, indígenas e de fora do eixo Sudeste. Em 2026 o museu programou 16 mostras, com nomes como Pascale Marthine Tayou, Cristina Salgado, Ismael Nery e Luana Vitra.

Como visitar

Os três prédios ficam a poucos minutos de caminhada uns dos outros, todos no entorno da Estação da Luz, atendida pelo Metrô (linhas 1-Azul e 4-Amarela) e pelos trens da CPTM. Ir de carro é tecnicamente possível, já que Pina Luz e Pina Estação têm estacionamento, mas é a pior escolha disponível.

Endereços: Pina Luz na Praça da Luz, 2. Pina Estação no Largo General Osório, 66. Pina Contemporânea na Avenida Tiradentes, 273.

Um único ingresso vale para os três edifícios no mesmo dia. Inteira R$ 40, meia R$ 20 para estudantes com carteirinha, com taxa adicional na compra on-line. Crianças até 10 anos e pessoas com 60 anos ou mais não pagam. Sábado é gratuito nos três prédios, e o segundo domingo de cada mês também, por cortesia da B3. Às quintas, a Pina Luz estende o horário até as 20h, com entrada liberada a partir das 18h.

Reserve de duas a três horas para uma visita razoável. Quem quiser os três prédios, o Jardim das Esculturas e uma parada no café deve contar com meio período. O museu fecha às terças.

Um conselho de quem anda por ali com frequência: combine a visita com a Sala São Paulo, o Museu da Língua Portuguesa e o Jardim da Luz, todos num raio de poucas quadras. O bairro tem seus problemas, e não adianta fingir que não tem, mas essa concentração de arte e arquitetura em pé de igualdade não existe em nenhum outro trecho da cidade.

Perguntas frequentes

Quando foi fundada a Pinacoteca de São Paulo? Em 1905, pelo governo do Estado de São Paulo. É o museu de arte mais antigo da cidade.

Quanto custa o ingresso da Pinacoteca? R$ 40 a inteira e R$ 20 a meia. O bilhete dá acesso aos três edifícios no mesmo dia.

A Pinacoteca tem entrada gratuita? Sim. Aos sábados e no segundo domingo de cada mês a entrada é livre nos três prédios. Às quintas, a Pina Luz libera o acesso das 18h às 20h. O Memorial da Resistência é sempre gratuito.

Qual o horário de funcionamento? De quarta a segunda, das 10h às 18h, com entrada até as 17h. Fecha às terças.

Quantos prédios tem a Pinacoteca? Três: Pina Luz (Praça da Luz, 2), Pina Estação (Largo General Osório, 66) e Pina Contemporânea (Av. Tiradentes, 273).

Quanto tempo dura a visita? De duas a três horas para o essencial. Meio período para os três edifícios com calma.

Como chegar de metrô? Estação Luz, linhas 1-Azul e 4-Amarela, ou pelos trens da CPTM. A Pina Luz fica a menos de cinco minutos a pé.

Quais são as obras mais conhecidas do acervo? "Caipira picando fumo" (1893), de Almeida Júnior, é a mais famosa. A coleção reúne ainda Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Portinari, Lasar Segall, Volpi, Brecheret e Lygia Clark.

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