No número 37 da Avenida Paulista, entre a Alameda Santos e o vaivém de ônibus e ciclistas, um telhado de ardósia interrompe a linha de vidro e concreto que domina a via. É a Casa das Rosas, o penúltimo sobrevivente das mansões que ocuparam a avenida quando ela ainda era, sobretudo, um endereço residencial dos barões do café.
Uma encomenda de família
A casa não nasceu como projeto comercial nem como monumento público. Foi um presente. Francisco de Paula Ramos de Azevedo — engenheiro e arquiteto por trás do Theatro Municipal, da Pinacoteca do Estado e do prédio da Light — projetou o casarão para a filha Lúcia Lacaze Ramos de Azevedo e o genro, Ernesto Dias de Castro.
O projeto começou a sair do papel em 1927. A obra, acompanhada pelo engenheiro Felisberto Ranzini, só ficou pronta em 1935, já sob a assinatura do Escritório Severo & Villares, sucessor da firma de Ramos de Azevedo. Entre o desenho e o acabamento final, se passaram oito anos — tempo suficiente para a avenida ao redor começar a mudar.
Trinta cômodos e quatro pavimentos
Esqueça a imagem de casa simples. A Casa das Rosas tem cerca de trinta cômodos distribuídos em quatro pavimentos — porão, dois andares sociais e uma mansarda — mais duas varandas, uma de frente para a Paulista e outra, mais reservada, nos fundos do terreno.
A planta segue uma lógica que Ramos de Azevedo repetiu em vários projetos residenciais da época: áreas íntimas, sociais e de serviço bem separadas entre si, sem cruzamento de circulação. A alvenaria de tijolos recebeu acabamentos nobres — pisos marchetados em madeira e mármore nos salões, ladrilhos hidráulicos coloridos e azulejaria nas áreas de serviço. O estilo é eclético, com influência da Renascença francesa: janelas emolduradas, platibandas trabalhadas, um jardim que remete ao paisagismo europeu de jardim formal.
As rosas plantadas nesse jardim deram nome à casa. Não sobrou registro de quem teve a ideia de plantá-las ali — só ficou o nome.
Cinquenta e um anos como casa de família
A família morou na Casa das Rosas por 51 anos. Depois de Lúcia e Ernesto, o imóvel passou para um dos filhos do casal, Ernesto Dias de Castro Filho, e sua esposa, Anna Rosa. Até 1986, ainda havia descendentes de Ramos de Azevedo vivendo entre aquelas paredes — enquanto lá fora a Paulista virava outra coisa: bancos, sedes de empresas, prédios de vinte andares.
A demolição que não aconteceu
Em meados da década de 1980, o casarão ficou cercado por arranha-céus e passou a valer mais como terreno do que como construção. A ameaça de demolição era real. O Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) tombou o imóvel em 1985, numa das primeiras ações do tipo voltadas a um edifício da própria Paulista.
O acordo que salvou a casa incluiu uma concessão: parte do terreno, com acesso pela Alameda Santos, foi liberada para a construção de um edifício comercial. A casa ficou, o jardim ficou, e ao lado subiu uma torre de vidro — solução pragmática, mas que garantiu a sobrevivência do casarão.
De residência a espaço cultural
O governo do estado restaurou o imóvel principal e o abriu ao público em 1991, ano do centenário da Avenida Paulista, primeiro como Galeria Estadual de Arte. Poucos anos depois, o espaço ganhou identidade própria: passou a se chamar Casa das Rosas — Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, em homenagem ao poeta e tradutor paulistano. Hoje é administrado pela Poiesis, organização social de cultura vinculada à Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo.
Entre 2021 e 2023, a casa passou por um novo restauro — dessa vez com foco em acessibilidade arquitetônica, além da recuperação de elementos originais que décadas de uso residencial e depois institucional haviam desgastado.
O que encontrar hoje
A programação gira em torno de literatura: saraus, oficinas de criação, lançamentos de livros, encontros com escritores, exposições. Na parte externa, o jardim de roseiras continua ali, e a edícula do fundo abriga um café e um restaurante — um dos poucos lugares na Paulista onde dá para sentar embaixo de uma árvore em vez de numa marquise de vidro.
A entrada é gratuita. A casa fica a poucos metros da estação Brigadeiro do metrô, e funciona de terça a domingo — vale checar o site oficial antes de ir, porque os horários mudam conforme a programação de cada mês.
Perguntas frequentes sobre a Casa das Rosas
Quem construiu a Casa das Rosas? O Escritório Técnico Ramos de Azevedo, comandado pelo engenheiro e arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo. A obra foi encomendada como presente para sua filha, Lúcia, e o genro, Ernesto Dias de Castro.
Em que ano a Casa das Rosas foi construída? O projeto começou em 1927 e a construção terminou em 1935.
Por que o nome "Casa das Rosas"? Por causa das roseiras plantadas no jardim do casarão, num paisagismo inspirado em jardins formais europeus.
A Casa das Rosas é tombada? Sim. O Condephaat tombou o imóvel em 1985, quando ele corria risco de demolição em meio à verticalização da Avenida Paulista.
Desde quando a Casa das Rosas é um espaço cultural? Desde 1991, ano em que foi restaurada e aberta ao público como Galeria Estadual de Arte, coincidindo com o centenário da Avenida Paulista.
A visitação à Casa das Rosas é paga? Não, a entrada é gratuita.
Onde fica a Casa das Rosas? Avenida Paulista, 37, no bairro Paraíso, em São Paulo — próximo à estação Brigadeiro do metrô.
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