História Centro 6 min de leitura

Edifício Guinle: a história do primeiro prédio de São Paulo, na Rua Direita

Edifício Guinle: a história do primeiro prédio de São Paulo, na Rua Direita
Yahisbel Adames, CC BY-SA 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0>, via Wikimedia Commons
O Edifício Guinle, na Rua Direita, foi o primeiro prédio alto de São Paulo: sete andares em concreto armado, art nouveau e tombado desde 2007.

O Edifício Guinle fica na Rua Direita, 49, no centro histórico de São Paulo. Projetado em 1912 por Hippolyto Gustavo Pujol Júnior e Augusto de Toledo, tem sete andares e 36 metros de altura, foi levantado em concreto armado para ser a sede paulistana da família carioca Guinle e é apontado como o primeiro arranha-céu da cidade. O Conpresp tombou o prédio em 2007. Desde 1997 ele pertence à Mundial Calçados, que mantém uma loja no térreo.

Quem passa por ali com pressa quase não olha para cima. Eu também não olhava. Cercado de lojas populares, letreiros e gente indo e vindo pelo calçadão, o Guinle parece só mais um prédio antigo da Rua Direita. Mas em 1913 nenhum outro edifício da cidade chegava perto daquela altura, e a discussão que ele provocou na Prefeitura diz muito sobre como São Paulo aprendeu a crescer para cima.

Ficha rápida do Edifício Guinle

Item Informação
Endereço Rua Direita, 49 (lote com os números 37, 43, 49 e 53), Sé, centro de São Paulo
Numeração original Rua Direita, 7
Projeto 1912, por Hippolyto Gustavo Pujol Júnior e Augusto de Toledo
Obra Iniciada em 1912 ou 1913 e concluída em 1916, conforme a fonte; a inauguração costuma ser datada de 1913
Altura 36 metros (o projeto previa 32; duas edículas na cobertura somaram os 4 metros restantes)
Andares 7
Estilo Art nouveau
Estrutura Concreto armado com vedação em alvenaria
Encomendante Família Guinle, para a sede paulistana da Guinle & Cia.
Proteção Tombado pelo Conpresp em 2007 (fachadas e volumetria)
Uso atual Loja da Mundial Calçados no térreo; estoque e sala de reuniões nos andares superiores
Restauro Fevereiro a outubro de 2011, orçado em R$ 700 mil

A São Paulo de 1912 e o problema de um prédio com sete andares

A Rua Direita é uma das ruas mais antigas de São Paulo, aberta no século XVI, e o nome vem de um costume português: chamar de "direita" a via principal do povoado. Já foi Rua Direita de Santo Antônio e Rua Direita da Misericórdia, por causa das igrejas que serviam de referência. Nos séculos XVIII e XIX, as casas eram sobrados, com loja embaixo e moradia em cima.

Com as ruas Quinze de Novembro e São Bento, ela desenhava o Triângulo, o miolo comercial e elegante da cidade do café. Ali ficavam a Casa Lebre, a Casa Alemã, as confeitarias Fasoli e Nagel, o Grande Hotel da França. Na esquina com a São Bento, os paulistanos falavam nos Quatro Cantos, o único cruzamento em ângulo reto do centro velho, onde hoje está a Praça do Patriarca.

Era uma cidade baixa. Em 1912, a maioria das construções não passava de dois andares, com uma única exceção de quatro. É nesse tecido de sobrados que chega, em setembro daquele ano, o pedido de licença para o "edifício de cimento armado" da Guinle & Cia.

Quem eram os Guinle e por que vieram para São Paulo

A fortuna dos Guinle nasceu no comércio de tecidos importados no Rio de Janeiro, sociedade de Eduardo Palassin Guinle com Cândido Gaffrée. O salto veio em 1888, quando o grupo ganhou a concessão para construir e explorar o Porto de Santos, por prazo que acabou estendido a 90 e poucos anos, conforme a fonte. A Companhia Docas de Santos entregou os primeiros 260 metros de cais em 1892 e operou o porto até 1980. Com o café puxando as exportações, o dinheiro não parou de entrar.

Uma parte menos lembrada dessa história: o guia de arquivos da própria Docas registra que cerca de 3.500 operários morreram nas obras do porto, entre 1889 e 1892, num ambiente sanitário precário. A riqueza que financiou prédios elegantes como o da Rua Direita tem esse custo humano na origem.

Um detalhe cronológico ajuda a não simplificar. Eduardo Guinle morreu em março de 1912, seis meses antes do pedido de licença. O prédio paulistano, portanto, saiu já na geração seguinte, e a partir de 1914 quem comandava a Docas era o filho, Guilherme Guinle. As fontes que consultei dizem que o edifício abrigaria a sede ou a filial paulista do escritório da família, mas não detalham quais negócios funcionavam ali. Faz sentido: Santos é logo ali, e a capital paulista era o centro financeiro do café.

Pujol Júnior e Augusto de Toledo: os autores do projeto

O projeto leva as assinaturas de Hippolyto Gustavo Pujol Júnior e de Augusto de Toledo. Pujol Júnior, formado pela Escola Politécnica, é lembrado pela dedicação ao concreto armado: publicou em 1907 o que pode ter sido o primeiro estudo brasileiro sobre a técnica. Parte das fontes o apresenta como catalão; outras não mencionam a origem.

As vigas do Guinle vencem vãos de mais de 12 metros, algo raro para a época, e Pujol Júnior as testou em experiências que ele mesmo conduzia no laboratório onde trabalhava.

A aprovação: o engenheiro Sá Rocha, o prefeito Duprat e a Politécnica

O caminho até o alvará foi mais longo do que a obra parecia exigir. O engenheiro Sá Rocha, encarregado de analisar o pedido, não achou impedimento técnico. O que incomodava a Prefeitura, segundo os relatos, era menos a altura e mais o fim da simetria entre os prédios do centro. Também pesou o receio de que o novo volume roubasse sol dos vizinhos da frente.

Sá Rocha foi atrás de referências e comparou as normas de cidades estrangeiras: nos Estados Unidos se construía até 70 metros, enquanto em Paris e em Buenos Aires o limite era de cerca de 30. Mandou o levantamento à Câmara e à comissão de obras.

O prefeito, o Barão de Duprat, continuava desconfiado de que sete andares parassem em pé. Pediu então um aval a Francisco de Paula Souza, diretor da Escola Politécnica, e o Gabinete de Resistência dos Materiais da escola, antecessor do atual IPT, acompanhou a obra. A Câmara aprovou a planta em 22 de novembro de 1912, pela Resolução n. 32, e o alvará saiu.

Concreto armado: o que havia de novo no Guinle

O Guinle costuma ser apresentado como o primeiro edifício em concreto armado do Brasil. Repito a frase porque aparece em quase todo lugar, com a ressalva de que ela pede cautela: a técnica já circulava no país, e o que a documentação sustenta com mais segurança é que foi a primeira obra paulistana desse porte acompanhada por ensaios da Politécnica. Há registro de que, mais de cem anos depois, o concreto voltou a passar por testes do IPT e foi aprovado, segundo reportagem da Folha de 2010.

Há um ponto que raramente entra nos textos entusiasmados. Estudos acadêmicos sobre a verticalização paulistana observam que o Guinle e o Sampaio Moreira usaram o concreto de forma conservadora: pilares e vigas, vedação de tijolo, nenhuma ousadia de forma ou de planta livre. A ousadia estava na escala e na prova de que aquilo se sustentava. Não é pouca coisa, mas convém não vender o prédio como uma proeza formal que ele não é.

Edifício Guinle
Yahisbel Adames, CC BY-SA 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0>, via Wikimedia Commons

A fachada: art nouveau em ocre e grafite

A arquitetura é associada ao art nouveau, com influência apontada de sua vertente austríaca. Vale olhar com calma. O térreo tem revestimento de granito rugoso e argamassa pigmentada, com peças de bossagem rústica alternadas com trechos de argamassa lisa. As portas do térreo são de chapa metálica ondulada, com gradil de ferro sobre a verga. Nos andares de cima, as esquadrias são de madeira e vidro, de duas folhas, com bandeira. As aberturas eram largas para o padrão paulistano do tempo.

A cor geral é ocre. Originalmente a fachada não recebia pintura: era massa raspada, e assim voltou a ficar depois do restauro. Na cobertura, as duas edículas que empurraram a altura de 32 para 36 metros ainda aparecem no perfil, e o telhado retomou a cerâmica.

Guinle, Sampaio Moreira e Martinelli: quem foi o primeiro arranha-céu?

A resposta depende do que se chama de arranha-céu. O Guinle, com sete andares, foi o primeiro prédio alto da cidade, e por isso ganha o título com frequência. O Sampaio Moreira, na Rua Líbero Badaró, 346, inaugurado em 1924, tinha 12 andares e 50 metros e foi o mais alto de São Paulo até o Martinelli superá-lo, em 1929. Muitos autores e guias preferem dar a ele o posto de primeiro arranha-céu.

O dicionário online sobre o centro de São Paulo, mantido pela pesquisadora Mônica Yamagawa, resolve a disputa com uma imagem de família: o Martinelli seria o pai, o Sampaio Moreira o avô e o Guinle o bisavô dos arranha-céus paulistanos. Gosto da solução. Ela não briga com a cronologia e deixa claro quem abriu a fila.

O que aconteceu com o prédio no século XX

Sou obrigado a admitir uma lacuna: sobre as décadas entre a conclusão da obra e os anos 1960, as fontes acessíveis são escassas. O que se sabe com segurança é que, em 1965, a então proprietária, a Companhia Seguradora Brasileira, pediu a mudança de numeração. O imóvel deixou de ser Rua Direita, 7 e passou a ocupar um lote de números 37, 43, 49 e 53, com o 49 na placa.

Ao redor, a rua mudou de perfil. Entre 1950 e 1977, segundo pesquisa da USP sobre a Rua Direita, ela ganhou oito arranha-céus de uso misto, com salas em cima e lojas no térreo. O Guinle, que fora exceção, passou a conviver com prédios muito maiores, e o centro novo tirou parte da elegância do Triângulo.

Em 1997, os sócios da Mundial Calçados compraram o imóvel. Instalaram a loja no térreo, deixaram o estoque e a sala de reuniões nos andares superiores e cuidaram de limpar a fachada e recuperar as esquadrias de pinho-de-riga e as grades de ferro.

Tombamento e restauro de 2011

O Conpresp tombou o Guinle em 2007, protegendo fachadas e volumetria. Em 2009, a empresa apresentou à Prefeitura um projeto de restauro para recuperar as características desenhadas por Pujol, o que exigiu retirar elementos acrescentados ao longo do tempo. O Conpresp aprovou o plano em 2010, e a Companhia do Restauro passou um ano estudando cada etapa, incluindo a prospecção de cores.

As obras começaram em fevereiro de 2011 e mobilizaram um grupo de 25 pessoas, entre arquitetos, pedreiros e carpinteiros. Foram feitas 74 novas cremonas, os trincos das janelas, fundidas conforme o desenho original. Os elementos decorativos metálicos, pintados de dourado por anos, voltaram ao grafite. A fachada recuperou a massa raspada e o telhado voltou a ser de cerâmica.

O financiamento tem uma curiosidade legal. Os R$ 700 mil saíram de um outdoor instalado na fachada, com base no artigo 50 da Lei Cidade Limpa, que permite publicidade para bancar a recuperação de imóveis históricos. O Guinle foi o primeiro prédio a usar esse artigo. Ou seja: o mesmo instrumento que muita gente associa à poluição visual serviu para devolver ao prédio a cor e o desenho de 1913.

Como visitar o Edifício Guinle

O Guinle é visto por fora. A loja do térreo funciona em horário comercial, mas os andares superiores servem de estoque e de sala de reuniões e não recebem visitantes. Confirme os horários da loja antes de ir.

Um roteiro curto de caminhada, pensando em quem gosta de arquitetura:

  1. Comece na Praça da Sé, onde nasce a Rua Direita, e siga pelo calçadão até o número 49. Vale parar do outro lado da rua para enxergar o edifício inteiro e as edículas do topo.
  2. Continue até a Praça do Patriarca, ponto final da Rua Direita, onde ficavam os Quatro Cantos.
  3. Atravesse o Viaduto do Chá e volte pela Rua Líbero Badaró até o Edifício Sampaio Moreira, no número 346, com a Casa Godinho no térreo desde 1924.
  4. Termine no Martinelli, na Rua São Bento, para completar a "família" dos arranha-céus.

As estações Sé e São Bento do metrô ficam a poucos minutos a pé.

Perguntas frequentes sobre o Edifício Guinle

Onde fica o Edifício Guinle? Na Rua Direita, 49, no bairro da Sé, centro histórico de São Paulo. A rua vai da Praça da Sé à Praça do Patriarca e integra o chamado Triângulo, com as ruas Quinze de Novembro e São Bento.

Quando foi construído o Edifício Guinle? O projeto é de 1912, a Câmara aprovou a planta em novembro daquele ano e a inauguração costuma ser datada de 1913. Algumas fontes indicam que as obras seguiram até 1916.

Quem projetou o Edifício Guinle? Os autores são Hippolyto Gustavo Pujol Júnior e Augusto de Toledo. Ele foi encomendado pela família Guinle para ser a sede paulistana da Guinle & Cia.

Por que o Guinle é chamado de primeiro arranha-céu de São Paulo? Porque, com sete andares e 36 metros, foi o primeiro prédio alto da cidade, cercada então de sobrados de até dois andares. O Edifício Sampaio Moreira, de 1924, com 12 andares e 50 metros, também disputa o título, conforme o critério adotado.

Qual a altura do Edifício Guinle? São 36 metros e sete andares. O projeto original previa 32 metros, e a diferença vem de duas edículas construídas sobre a cobertura.

O Edifício Guinle é tombado? Sim. O Conpresp, órgão municipal de preservação, tombou o edifício em 2007, protegendo as fachadas e a volumetria.

Comentarios (0)

Efetue login para participar da conversa.