A imigração sírio-libanesa em São Paulo começou na década de 1870 e ganhou volume entre 1895 e 1930. Os imigrantes vinham do antigo Império Otomano, instalaram-se na Várzea do Carmo e na Rua 25 de Março, começaram como mascates e, aos poucos, abriram lojas, fábricas e instituições. Uma delas é o Hospital Sírio-Libanês, criado em 1921 por mulheres da comunidade e inaugurado em 1965, na Bela Vista.
Quem eram os sírios e libaneses que chegaram a São Paulo
Os primeiros chegaram sem que ninguém os chamasse. Diferentemente dos italianos, que vieram em grande parte com passagem paga para as fazendas de café, sírios e libaneses atravessaram o Atlântico por conta própria, e isso explica muita coisa sobre o que fizeram depois. Sem contrato, sem fazenda esperando, dependiam de parentes e conterrâneos que já estavam por aqui.
Eram quase todos súditos do Império Otomano, que dominava a região da Grande Síria, onde ficam hoje o Líbano e a Síria. Por isso ganharam o apelido de "turcos", que o brasileiro usou por décadas para um povo que nada tinha de turco e que muitas vezes se ofendia com o rótulo. Os estudos sobre o tema apontam como causas da partida a crise econômica no Monte Líbano, a pressão tributária, o recrutamento militar e as tensões religiosas na região. Costuma-se citar também a viagem de Dom Pedro II ao Oriente Médio, em 1876, como um dos fatores que aproximaram o Brasil do imaginário dessas famílias, embora os historiadores discutam o peso real dessa visita.
O sociólogo Oswaldo Truzzi, da UFSCar, mostra que a maior parte da imigração em massa para São Paulo foi formada por cristãos e aconteceu entre 1895 e 1930. Depois desse período, a entrada diminuiu por causa de restrições legais e da crise de 1929. Fluxos posteriores, ligados à Guerra Civil Libanesa (1975 a 1990), trouxeram um grupo mais diversificado do ponto de vista religioso.
Linha do tempo da imigração sírio-libanesa em São Paulo
- Década de 1870: chegam os primeiros imigrantes do Oriente Médio, sem subsídio do governo.
- 1895 a 1930: período de maior volume, concentrado na capital e no interior paulista.
- 1921: mulheres da comunidade fundam a Sociedade Beneficente de Senhoras, que dará origem ao Hospital Sírio-Libanês.
- Década de 1930: com a consolidação da indústria nacional, as lojas da 25 de Março passam a vender sobretudo produtos fabricados no Brasil.
- Entre 1940 e 1950: documentos da Assembleia Legislativa paulista citam cerca de 70 mil sírios e libaneses na cidade de São Paulo, número que deve ser lido como estimativa.
- 1965: inauguração do edifício do hospital, na Bela Vista.
- 1975 a 1990: a guerra no Líbano provoca nova onda de saída de libaneses.
- 2013: o Conare, órgão do Ministério da Justiça, cria um visto especial para quem foge do conflito na Síria. O Brasil foi o primeiro país da América Latina a adotar esse tipo de medida, segundo o Acnur.
Como a Rua 25 de Março virou o endereço da comunidade
Quem desembarcava em Santos subia a serra e, em geral, ia parar na região da Várzea do Carmo, perto do rio Tamanduateí. A Rua 25 de Março, que recebeu esse nome em referência à data da Constituição outorgada por Dom Pedro I em 1824, tornou-se o ponto de encontro. Ali o imigrante dormia numa pensão, arranjava mercadoria a prazo com um patrício e saía a pé, com a caixa nas costas, para vender de porta em porta.
Era o mascate. Vendia tecido, botão, linha, pente, espelho. Com o trem, a rota se alargou: de São Paulo, esses vendedores chegavam a cidades do interior como Barretos e Bariri, e muitos acabavam ficando por lá, abrindo a primeira loja fixa onde antes passavam com a mala. O estudo de Truzzi registra bem esse mecanismo de rede, em que o recém-chegado era encaminhado para onde já havia gente da mesma aldeia.
A 25 de Março deixou de ser só dos sírios e libaneses faz tempo. Hoje, segundo levantamento citado pela SPTuris, recebe mais de 400 mil pessoas por dia, e boa parte dos visitantes procura mercadoria para revender, o que é uma forma moderna, e bem mais barulhenta, do velho ofício do mascate. Vale reparar na palavra: o mascate de ontem virou o sacoleiro de hoje, e as pesquisas sobre a rua tratam justamente dessa continuidade.
Do Brás ao Paraíso: como a comunidade se espalhou pela cidade
A dispersão foi gradual. Uma dissertação defendida na USP sobre a trajetória dos sírios e libaneses na cidade mostra que, conforme as famílias prosperavam e chegavam novos imigrantes, elas passaram a morar e a abrir negócios em outras áreas. A mudança não significou abandonar a 25 de Março: muitas famílias mantiveram a loja ali e a casa em outro bairro.
O Brás e as imediações da 25 de Março concentraram o comércio. No Ipiranga ficavam as residências da família Jafet, uma das mais conhecidas no ramo têxtil. Já os equipamentos culturais e comunitários se concentraram no Paraíso e na Vila Mariana, para onde parte da comunidade se mudou ao subir na vida. O nome de Dona Adma Jafet está até hoje numa rua da Bela Vista, a que dá acesso ao pronto-socorro do hospital.
Hospital Sírio-Libanês, sociedades e igrejas
A comunidade criou cedo as próprias instituições de ajuda mútua. Entre elas estão sociedades beneficentes, clubes e igrejas, como a Igreja Ortodoxa Antioquina de São Jorge. Mas nenhuma teve o alcance do hospital.
A Sociedade Beneficente de Senhoras foi fundada em 1921 por mulheres da colônia sírio-libanesa, que quiseram retribuir a acolhida recebida no Brasil e começaram a arrecadar dinheiro para construir um hospital filantrópico. O edifício só ficou pronto em 1965, quarenta e quatro anos depois. A gestão feminina, aliás, continua: Violeta Basílio Jafet, filha de Adma Jafet, presidiu a diretoria executiva da sociedade por mais de quatro décadas, a partir de 1960. Hoje o Sírio-Libanês é um dos hospitais mais conhecidos do país e mantém, além do atendimento particular, projetos para o SUS e a gestão de unidades públicas de saúde no estado.
O que a comunidade mudou na mesa e no comércio paulistano
O paulistano come esfiha em pé, no balcão, sem perceber que está repetindo um gesto trazido de outro continente. A esfiha, o quibe, a coalhada seca, o tabule e o pão sírio entraram no cardápio cotidiano da cidade, no almoço de padaria, no lanche de fim de tarde, na festa de aniversário. O que se vende em São Paulo, claro, mudou no caminho: a esfiha aberta de carne é mais popular aqui do que em muitas cidades árabes, e a versão de queijo com catupiry certamente não foi inventada em Beirute.
No comércio, a marca é ainda mais visível. Tecidos, armarinhos, confecções, importados: o trajeto que começou na mala do mascate passou pela loja de bairro e chegou a grandes redes e fábricas.
Política, profissões e sobrenomes
Os filhos e netos dos primeiros imigrantes apostaram em educação e em carreiras liberais, como mostram os estudos sobre o tema, e isso abriu caminho para a política. Descendentes de libaneses ocuparam cargos importantes na vida pública brasileira: Michel Temer, filho de libaneses, presidiu o país; Paulo Maluf e Fernando Haddad, também de origem libanesa, governaram a cidade de São Paulo. Eles têm trajetórias e posições muito diferentes entre si, o que talvez diga mais sobre a diversidade da comunidade do que qualquer generalização.
Quantos descendentes existem no Brasil? Não há resposta oficial, porque o censo do IBGE não pergunta sobre ascendência árabe. Entidades da comunidade trabalham com estimativas que passam de 10 milhões de pessoas no país, número que varia muito conforme o critério e deve ser tratado com cautela.
Os novos imigrantes: refugiados sírios em São Paulo
A história não terminou no século passado. Com a guerra na Síria, iniciada em 2011, o Brasil passou a receber um fluxo de refugiados. Em setembro de 2013, o Conare publicou uma norma que facilitou a concessão de vistos para pessoas afetadas pelo conflito, e o pedido de refúgio passou a ser feito na chegada ao país. Dados do Comitê da época mostram São Paulo como a cidade e o estado com mais pedidos de refúgio.
O reencontro é curioso. Esses refugiados chegam a uma cidade onde existem restaurantes, igrejas, mesquitas, escolas e comerciantes de origem síria e libanesa, mas isso nem sempre se traduz em acolhida fácil. Reportagens da época registraram sírios abrigados em ocupações de sem-teto no centro, a poucos quarteirões do território histórico dos mascates. Os números atuais mudam de ano para ano e devem ser conferidos nos relatórios mais recentes do Conare e do Acnur.
Onde conhecer essa história em São Paulo
- Museu da Imigração, na Mooca, instalado na antiga Hospedaria de Imigrantes, que recebeu milhares de recém-chegados no fim do século XIX.
- Rua 25 de Março e entorno, no centro, onde o comércio ainda guarda a memória da primeira geração.
- Região do Paraíso e da Vila Mariana, onde a comunidade instalou clubes, igrejas e associações.
- Rua Dona Adma Jafet, na Bela Vista, endereço do Hospital Sírio-Libanês.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre sírios e libaneses nesse contexto?
No período inicial, a distinção quase não existia. Os imigrantes saíam de uma mesma região do Império Otomano, a Grande Síria, e só depois que o Líbano e a Síria viraram países distintos, no século XX, passaram a se identificar por nacionalidades diferentes. Por isso a historiografia costuma tratá-los em conjunto, como "sírio-libaneses".
Por que chamavam sírios e libaneses de turcos?
Porque chegavam com documentos do Império Otomano, cuja capital era Constantinopla. O apelido pegou, apesar de a maioria ser de origem árabe e cristã.
Quando a imigração sírio-libanesa começou em São Paulo?
Na década de 1870, segundo a pesquisa acadêmica, com a fase de maior volume entre 1895 e 1930.
Onde os sírios e libaneses se estabeleceram primeiro em São Paulo?
Na Várzea do Carmo e na Rua 25 de Março, no centro da cidade, onde moravam e trabalhavam.
Quem fundou o Hospital Sírio-Libanês?
Um grupo de mulheres da comunidade sírio-libanesa, que criou a Sociedade Beneficente de Senhoras em 1921. O hospital foi inaugurado em 1965.
Comentarios (0)